Enchentes no Sul. A tragédia não tem ideologia. As ações, sim
por Armando Coelho Neto
O mundo não será mais o mesmo. Essa frase surgiu durante a pandemia, não raro prenhe de reflexões sobre as manifestações de solidariedade, humanismo. Imagens de cozinha solidárias mesclava-se com a de caminhões arrecadando corpos nas ruas da Itália. Aplausos a médicos e enfermeiros, concertos em varandas, cultos ecumênicos, imagens de cidades turísticas vazias… Mas, havia certo sobrosso no ar.
Naquele “novo normal”, pessoas ocultas em máscara viam-se olhos nos olhos. Sem máscaras, somente nos telões, ou negacionistas e patinadores da Terra Plana induzindo mentes fracas ao suicídio. De qualquer forma, superado o infausto ordálio, chegou-se a alimentar a perspectiva de uma nova vida, quem sabe menos rica, mas não necessariamente mais pobre, mas quem sabe até feliz.
Ledo engano. Mais de 15 milhões de pessoas morreram no mundo, a ganância e o negacionismo se fortaleceram. A Rússia não resistiu às provocações da Otan e ocupou a Ucrânia. O mundo que não chorava pelos mortos no Yemem e outros campos de batalha, chorou pelos ricos olhos azuis ucranianos, enquanto assassinos do Brasil tentavam passar boiadas, dizimar índios, tocar fogo em florestas…
Para reeleger o maior rábula da história nacional, a quadrilha que roubava durante a pandemia, comprou votos, enriqueceu bancos, tentou impedir eleitores de votar, não sem tentar, também, tomar de volta dos pobres o auxílio criado a fórceps pelo Congresso Nacional. Com apoio da extrema direita internacional, nazifascistas tupiniquins puseram fim a tênue esperança do sonho mágico do pós-pandemia.
Corta!
Depois de uma nuvem de gafanhotos ameaçando lavouras e pastagens, arroubos separatistas, manifestações discriminatórias contra nordestinos, o Rio Grande Sul entra num ciclo de tragédias. Sem punitivismos ou castigos divinos. Simples relação de causa e efeito revelados na perversidade de parte dos irmãos gaúchos, alinhados com nazifascistas internacionais e negacionistas das mutações climáticas.
Em clima de erisipela mental no Rio Grande do Sul, a natureza mostrou mais uma vez que não tem partido, não é de direita ou esquerda. Como tragédia paralela, políticos, influenciadores, jornalistas, evangélicos, negros saudosos do pelourinho que envergonham seus irmãos de cor, além de sádicos – todos movidos pelo ódio potencializam a dor nacional difundido informações falsas e criminosas.
Corta!
A vida moderna, hedonista e hiperindividualista leva as pessoas a postarem nas redes sociais pieguices, êxitos individuais, a comidinha e o vinho tomados, o sucesso do novo desafio físico, biquinhos e músculos no espelho por razão qualquer, a chatice do politicamente correto, o individualismo classista, enquanto as grandes questões como aquecimento global, dívida pública eram relegadas.
De repente, a natureza ruge, e destrói em poucas horas, como mero exemplo, metade do território gaúcho… De súbito, param de viver as redes sociais, entram em choque por que o vizinho morreu; é preciso se preocupar com o pai, a mãe o filho, precisa de barco, helicóptero… o cachorrinho ficou sozinho!… Abrigo público…O coletivo, e um cavalo cor de caramelo vira símbolo da resistência e esperança.
Mais que de repente, o mundo hedonista e artificial cai por terra, e o gaúcho, como um brasileiro qualquer, descobre o coletivo, o humanismo, o processo de produção de alimentos, como o ser humano se relaciona com a natureza e o meio ambiente, como as questões mundiais na emissão de carbono estão alterando o clima. E cai a ficha de como as relações individuais tem a ver com a situação do planeta.
Também de repente, ainda que de forma furtiva, descobre-se que as pessoas são iguais perante a fúria da natureza. Em transe, vê mais importância a memória no álbum de fotografias no armário perdido do que no carro comprado a prestação boiando, sendo levado pelas águas. Em momento efêmero, as circunstâncias impõem o pensar ser preciso somar para poder dividir o essencial à própria vida.
Em choque, ressurge a ideia de Estado, nem mínimo nem máximo, mas Estado necessário – hoje personificado na figura do presidente Lula, vítima eterna de uma grande mídia que por décadas semeou o nazifascismo. A mesma que finge criticar fake news, mas no fundo quer trazer para si a prerrogativa de mentir sozinha e cobrar de canais nanicos direitos autorais sobre a releitura de suas mentiras.
A tragédia sul-rio-grandense no fundo é retrato do Brasil erisipela, prenhe de delírios contra a natureza, universidade pública e SUS pagos, restrições à legislação indígena, entre outros delírios militares. Uma inundação de delírios lançados em maio deste ano pelo Instituto General Villas Bôas, com apoio do Instituto Sagres e do Instituto Federalista, de nome Projeto de Nação – O Brasil em 2035.
Obviamente, sandices do gênero contaram com o apoio do inelegível e seu vice, hoje silentes e omissos quanto à tragédia no Sul. A prevalecer o ideário, marcado pela apatia social, indiferença às questões climáticas, as tragédias já recorrentes se acentuarão sem planos de contingências, e terão o mesmo desleixo como a pandemia foi tratada, seja de jet sky ou em crise de erisipela.
Mas, quem sabe, o mundo fraterno que não veio pós-pandemia possa advir quando as águas baixarem, matas e flores renascerem, com o gaúcho e sua gaita voltando para casa, simbolicamente montados no Cavalo Caramelo. E, claro, providências em curso para não reincidência. As tragédias não têm ideologia. As ações, sim.
Obs: Com colaboradores
* https://marcozero.org/livro-reune-textos-criticos-aos-delirios-de-poder-dos-militares/
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
15 de maio de 2024 8:19 amEmbora abrigados em diversas legendas, só para confundir, os seguidores do coiso na verdade pertencem a um só partido: O do ódio! Mas não se enganem, os brutos também amam. Eles amam a Deus acima de tudo; embora se inspirem no diabo para praticar o mal. No entanto, por ser Deus intangível, portanto impossível de ser amado, o amor deles é pelo vazio, ou seja: O nada.